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VIAGEM

Música: Antonio Jardim
Texto: Cecília Meireles

No perfume dos meus dedos,
há um gosto de sofrimento,
como o sangue dos segredos
no gume do pensamento.

Por onde é que vou?

Fechei as portas sòzinha,
Custaram tanto a rodar!
Se chamasse, ninguém vinha.
Para que se há de chamar?

Que caminho estranho!

Eras coisa tão sem forma,
tão sem tempo, tão sem nada...
-arco-íris do meu dilúvio! -
que nem podias ser vista
nem quase mesmo pensada.

Ninguém mais caminha?

A noite bebeu-te as côres
para pintar as estrêlas.
Desde então, que é dos meus olhos;
Voaram de mim para as nuvens,
com rêdes para prendê-las.

Quem te alcançará?

Dentro da noite mais densa,
navegarei sem rumôres,
seguindo por onde fôres
como um sonho que se pensa.
Por Por onde é que vou?