Apresentação

04 de novembro de 2013
Por Luciana Villas Bôas e André Cardoso

Estudos Atlânticos: Literatura, História, Cultura

O mar foi sempre impregnado de significados culturais não só para as sociedades que viviam em contato direto com ele e dele dependiam para sua sobrevivência, No final do século XV e início do século XVI, com a expansão marítima da Europa, o mar, e particularmente o Atlântico, além de ganhar novos sentidos, transforma-se no pressuposto de uma nova concepção de espaço. Neste sentido, o espaço Atlântico marca o início de uma modernidade global. O Atlântico surge como porta de entrada para novas terras até então vedadas ao resto do mundo. Através dele montam-se rotas comerciais para o escoamento dos novos produtos obtidos das terras americanas em processo de colonização e de produtos oriundos das metrópoles. Ele é também o rumo tomado por contínuas ondas de migração que envolvem diretamente não só a Europa, mas também a África, com o afluxo forçado de milhões de africanos através do tráfico de escravos que se estenderia por séculos. Finalmente, o Atlântico se configura como palco de intensas trocas culturais envolvendo pelo menos três continentes.

Essa imagem do Atlântico como uma rede de troca de informações e mercadorias reverbera até hoje, e podemos ver nela um dos alicerces da Era Moderna. As viagens transatlânticas foram essenciais para a consolidação da modernidade não só por causa de fatores materiais, como a intensificação do comércio entre a Europa, as Américas e a África, mas também pelos movimentos populacionais e a circulação de ideias que esta promoveu. A própria noção da busca por uma ampliação do conhecimento, tão importante para o pensamento moderno, de certa forma reflete, ou é intensificada, pelos desafios colocados pela navegação. Por um lado, a necessidade de se guiar através do oceano e de garantir a sobrevivência da tripulação estimula o surgimento de novos instrumentos, técnicas de orientação e de mapeamento; por outro, o Atlântico surge também como uma vasta fronteira cheia de segredos a serem desvendados e controlados pela razão humana.

Tomando as navegações como um dos elementos centrais para o estabelecimento da Era Moderna, este número da revista Cadernos de Letras se propõe a discutir o papel do Atlântico no imaginário ocidental, no desenvolvimento da ciência moderna e de novos modelos cartográficos, na criação e circulação de narrativas históricas e literárias. Tendo como foco o oceano e não os espaços delimitados pelos Estados-nação, os artigos aqui publicados procuram fazer um esboço da modernidade como um processo dinâmico e multilateral, evoluindo ao longo de séculos através de interações constantes entre a Europa, as Américas e a África. Interessa-nos mostrar aqui que, longe de ser uma ideia europeia imposta ao resto do mundo através da expansão imperial, a modernidade é fruto do intercâmbio de várias sociedades muito diferentes entre si, que encontraram no Atlântico um espaço de contato que, repleto de conflitos, produziu novas maneiras de pensar e representar o mundo. O Atlântico, tomado como um espaço de interligação política, econômica e cultural, convida à revisão crítica das narrativas históricas convencionalmente aceitas sobre a Era Moderna.

Cada um dos artigos aqui publicados tematiza o Atlântico não como espaço geográfico previamente definido, mas antes como efeito de novas práticas de representação e organização do conhecimento. Em “Bird Islands or, Rethinking the Renaissance”, Timothy J. Reiss parte da análise da descrição de ilhas repletas de pássaros que oferecem refúgio e alimento para navegantes, presente em inúmeros relatos de viagem escritos durante a expansão marítima europeia até o século XVII, para sugerir uma reformulação da historiografia tradicional, que vê na Renascença um fenômeno essencialmente italocêntrico. A insistência com que a imagem dessas ilhas se repete, assim como a semelhança entre as ilhas descritas, permitira ver nelas não tanto o relato fiel de novas descobertas geográficas, mas a construção de uma metáfora da conquista de novas terras cheias de abundância e de povos considerados “selvagens” – e Las Casas se apropriaria da mesma imagem para denunciar a brutalidade da colonização espanhola da América. A importância da plumagem e das aves nas culturas pré-columbianas reforçaria o poder dessa imagem como símbolo do expansionismo europeu e como parte da consciência cultural da Europa. Suas origens, porém, seriam mais antigas do que a expansão marítima europeia, uma vez que há relatos semelhantes produzidos por navegadores árabes, além de perpassar várias nações. A partir dessa constatação, o abrangente artigo de Timothy Reiss faz um cuidadoso apanhado das diversas influências não europeias no campo das artes, da literatura, da ciência e da matemática para mostrar que o humanismo e a Renascença, longe de serem fenômenos europeus, foram frutos de séculos de interações entre diversas culturas, incluindo os bizantinos, os árabes, os latinos e os otomanos. Em sua revisão historiográfica, Reiss procura demonstrar que a Renascença resultou de um processo multilateral e dinâmico, alimentado por trocas culturais e comerciais através do Mediterrâneo e, mais tarde, do Atlântico. Ver a Renascença como uma consequência dessas trocas marítimas envolve questionar a posição central que a Europa ocupa há pelo menos dois séculos na historiografia ocidental. Para Reiss, seria mais exato falar de uma rede atravessada por nódulos mais ou menos hegemônicos e de um mundo que, de fato, sempre foi descentralizado.

No início do século XVII, o filósofo Francis Bacon já declarava que a invenção do compasso, da imprensa, e da pólvora havia transformado a face da terra. O artigo de Stephanie Leitch mostra, a partir de um caso concreto, como na cultura impressa se articulam formas de representação visual capazes de transmitir os novos conhecimentos espacial e marítimo. “Vespucci's Triangle and the Shape of the World” oferece uma análise original do diagrama usado para situar o Novo Mundo em relação à Europa em edições da carta Mundus Novus de Américo Vespucci. A linguagem geométrica abstrata que somente leitores familiarizados com modelos cartográficos seriam capazes de entender adquire, traduzida para as convenções pictóricas do diagrama, uma inteligibilidade mais ampla: os lados do triângulo são acompanhados de legendas que situam o leitor como espectador e definem a sua perspectiva: “da sind wir”, aqui estamos nós, “da sind sie”, aqui estão eles. Este modelo, apresentado como decodificação de princípios cosmográficos e proposições astronômicas, servirá de fundamento às representações cosmográficas da esfericidade da terra.

Em "Imaginários navegantes: ficções americanas na França das guerras de religião", Luiz Fabiano Freitas Tavares trata de uma carta anônima publicada em 1583 e enviada ao governador da la Rochelle com um relato sobre as viagens às ilhas do Brasil e da Flórida. Obviamente uma paródia satírica, o panfleto é investido de um duplo valor para os leitores de hoje: permite a explicitação das convenções narrativas do gênero e a meditação sobre o status da ficção e da não-ficção à época. O teor satírico do texto resulta da manipulação de lugares comuns, de topoi, encontrados na literatura de viagem sobre o Novo Mundo em geral. Ao recorrer a descrições publicadas recentemente sobre a França Antártica, a sátira reflete sobre o poder da imprensa de transformar rapidamente um determinado repertório textual em convenções estabelecidas. Também é por meio da cultura impressa que diferentes atores europeus encenam a disputa pela posse do Novo Mundo. Diferentemente da unidade da cultura humanista característica do contexto de publicação da carta de Vespucci, o Novo Mundo da sátira de 1583 é definido pela controvérsia entre diferentes atores europeus sobre as justificativas políticas e religiosas da expansão ultramarina.

A relação entre o Novo Mundo e as controvérsias religiosas é retomada no artigo de Ana Cláudia Romano Ribeiro, "O paraíso, a Terra Austral e o Congo. Utopia e paródia na Terra Austral conhecida (Genebra, 1676), de Gabriel de Foigny". Na tradição literária inaugurada pela Utopia de Thomas Morus, a projeção ficcional de um novo mundo é capaz de refletir sobre os vícios do velho mundo. Mais do que isso, ao esboçar paraísos, a utopia literária explicita os termos a partir dos quais se imagina a sociedade em geral. A autora mostra como concepções de história, de natureza e de humanidade são postas em xeque na obra de Foigny. A terra austral conhecida pode ser lida como uma paródia do texto bíblico, o Gênesis, que relata a origem da humanidade e a sua existência edênica, prelapsária. A utopia de Foigny afasta-se criticamente do texto bíblico em vários pontos: da monogênese, descrevendo a poligênese de povos; da natureza como "cenário do homem", separando natureza de religião; da figura de Adão, delineando a figura pré-adamita do habitante austral. O fascinante hermafrodita austral, que não precisa de sua "outra metade", parece sugerir que a Igreja, tradicionalmente associada a Eva, não é indispensável. Na medida em que tece uma crítica ao papel mediador da Igreja, a figura do austral prenuncia a associação iluminista entre os habitantes do Novo Mundo e crítica da civilização europeia.

Em "Serão todos filhos de Adão? A África subsaariana e o mundo cristão", Letícia C. F. Destro oferece uma reconstrução histórica abrangente da relação entre a cosmologia cristã, as primeiras navegações, e a invenção cartográfica da África. Destro discute os caminhos pelos quais na divisão cristã do mundo em três continentes, Europa, África e Ásia, caberia à África, habitada pelos descendentes de Cam, a posição hierarquicamente inferior. O estudo da autoridade de textos bíblicos, antigos, assim como de relatos de viagem originais, para a elaboração de mappae mundi leva à reflexão ampla sobre os fundamentos discursivos da cartografia moderna. A descoberta seja de populações indígenas africanas ou americanas provocou ao mesmo tempo a redefinição do mapa-múndi e a reconceitualização da unidade fundamental da espécie humana. Finalmente, a autora sugere que a genealogia bíblica, usada para justificar a escravidão dos africanos, paradoxalmente implicava a afirmação da unidade do gênero humano. Este uso paradoxal do texto bíblico apareceria, por exemplo, na condenação da escravização dos indígenas americanos.

A variedade de imagens positivas e negativas de selvagens é o tema abordado por Rosário Hubert, em "Bougainville in the South Atlantic: The Ethnographic Encounter and the Journal of Navigation." A noção do selvagem, seja como destituído de civilidade ou ainda não corrompido pela civilização, está no centro dos debates filosóficos sobre o conceito de humanidade. Hubert mostra que as descrições etnográficas de selvagens em narrativas de viagem não se confundem com as reflexões filosóficas sobre o bom selvagem. Ao invés de enfocar o Taiti, Hubert volta-se para uma parte negligenciada da Voyage au tour du monde de Bougainville, o Atlântico Sul. Se o Pacífico era ainda relativamente pouco explorado, as rotas atlânticas contavam com uma vasta bibliografia. A consulta à literatura preexistente faz com que Bougainville confira um caráter autorreflexivo ao texto. A comparação entre o texto impresso, a Voyage, e o Journal, o manuscrito que a antecede, é reveladora. No Journal o navegador/homem de letras opõe-se ao philosophe, traçando também uma distinção entre o uso especulativo e o uso empírico de descrições etnográficas. Diferentes modelos de viagem, a circum-navegação, de um lado, e as paradas, do outro, também são determinantes para a representação da alteridade. A visão edênica, idealizada dos taitianos contrasta com a visão mais crítica, pragmática dos habitantes do Atlântico Sul. Para a autora, Bougainville distancia-se de uma abordagem universalista da alteridade, para adotar uma visão condicionada geograficamente.

Finalmente, em “Überfahrt/Travessia: um conto de Anna Seghers”, de Klaus Eggensperger, o Atlântico surge mais uma vez como espaço de troca e passagem, ao mesmo tempo em que marca a distância entre realidades socioculturais distintas: o Brasil e a República Democrática Alemã na década de 1950. É durante a travessia marítima, ao voltar do Brasil para sua casa na Alemanha Oriental, que Ernst Triebel, o protagonista do conto de Seghers, conta a sua história para um companheiro no navio. Como Eggensperger argumenta, o Atlântico é o entre-lugar de que Triebel necessita para assumir o papel de narrador. O ato de narrar está ligado a uma busca de identidade e de uma localização cultural que só se torna possível na constante flutuação entre a terra natal e o estrangeiro. Assim, Überfahrt se desenvolve através do estabelecimento de uma série de dicotomias, como a oposição entre dever e amor, estrangeiro e familiar, realidade e aparência, dúvida e certeza, que permanecem sem solução, pois é no espaço entre esses polos que Triebel constrói sua existência. A própria ideia de terra natal, associada pelo protagonista às noções de honestidade e franqueza política, se desestabiliza, uma vez que Triebel não reconhece essas características na Alemanha socialista, mas sim na mulher por quem se apaixonara no Brasil, com a qual não conseguira se unir. Aqui e lá se tornam instáveis enquanto pontos de referência. A figura da passagem se torna símbolo não só de uma consciência que não consegue se reconhecer com conforto em nenhum lugar específico, mas de uma identidade que se forja no entrelaçamento entre história pessoal e contexto político. O ato de narrar não consegue unir as oposições entre as quais Triebel se vê dividido, mas oferece, no espaço simbólico da troca, o consolo do estabelecimento de relações sociais com uma comunidade de ouvintes.

Os Editores

Este número foi editado por Luciana Villas Bôas e André Cardoso. Colaborou Luciana Nunes Viter como assistente para editoração eletrônica.